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Ricardo Noblat: O governo que não foi: 30 anos sem Tancredo

Tancredo dizia: “Meu primeiro decreto terá um único artigo dizendo assim: ‘É proibido gastar’”. Queria dizer com isso que faria um governo austero, preocupado com o equilíbrio das contas públicas.

 Embora não fosse economista, Tancredo gostava de economia.

Fonte: O Globo

Ricardo Noblat: O governo que não foi: 30 anos sem Tancredo

O governo que não foi

Por Ricardo Noblat

Em um dia qualquer de julho de 1984, no seu apartamento do Bloco D, Quadra 709 Sul, em Brasília, o senador Marco Maciel (PE), um dos líderes da dissidência do PDS, partido da ditadura militar instalada no país há mais de 20 anos, recebia amigos e companheiros de aventura que haviam decidido apoiar a candidatura a presidente da República deTancredo Neves, 74 anos de idade, então governador de Minas Gerais.

A reunião no apartamento de Maciel serviria para sacramentar a candidatura a vice na chapa de Tancredo do senador José Sarney (MA), 54 anos, que renunciara, fazia pouco tempo, à presidência do partido da ditadura. Estavam ali, entre outros, os senadores Jorge Bornhausen (PDS-SC), Guilherme Palmeira (PMDB-AL) e Affonso Camargo (PMDB-PR). A campainha do apartamento soou e Everardo Maciel, economista amigo do anfitrião, foi abrir a porta.

O cheiro do fumo de cachimbo denunciou a entrada do senador Pedro Simon (PMDB-RS). Saudado pelos demais, Simon, que era muito ligado a Ulysses, derramou-se numa poltrona, cruzou os braços atrás da cabeça e anunciou em voz alta: “Temos problemas. É que no Rio Grande do Sul, achamos que Sarney é corrupto”. Nem bem ele terminou de falar, Sarney levantou-se e gritou: “Renuncio, indignado, à minha candidatura”.

O sempre calmo Maciel, dessa vez aflito, socorreu Sarney: “Minha solidariedade, minha solidariedade”. Os demais senadores fizeram o mesmo. Espantado ou se fingindo que estava, Simon perguntou: “Fiz alguma coisa errada?” O estrago que ele fez só foi consertado depois de mais três ou quatro horas de reunião, e de se apelar por telefone a Tancredo e a Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, que estavam na cidade. Sarney foi embora da reunião como vice de Tancredo.

Ulysses e Tancredo tocavam de ouvido. E, por sabedoria, às vezes desafinavam. Ulysses e Sarney, jamais. Atravessaram brigando o governo de Sarney. A todo o momento, Ulysses provocava Sarney para testá-lo. Até que ponto Sarney seria fiel à herança de Tancredo? Ou ele acabaria por traí-la quando se sentisse mais forte no cargo? No primeiro ano de governo, Sarney arranjou-se com os ministros escalados por Tancredo. No segundo ano, com os seus.

Um dos primeiros ministros a sair foi Francisco Dornelles, da Fazenda, sobrinho de Tancredo e homem da confiança dele. Tancredo dizia: “Meu primeiro decreto terá um único artigo dizendo assim: ‘É proibido gastar’”. Queria dizer com isso que faria um governo austero, preocupado com o equilíbrio das contas públicas. Embora não fosse economista,Tancredo gostava de economia.

Por fraqueza política, forçado pelo PMDB de Ulysses a mostrar serviço, Sarney substituiu no Ministério da Fazenda o ortodoxo Dornelles pelo heterodoxo Dílson Funaro. E aí aconteceram fatos que jamais ocorreriam com Tancredo. O Plano Cruzado, por exemplo, que congelou preços e salários. Ele fez de Sarney um deus reverenciado pela maioria dos brasileiros, e deu ao PMDB sua maior vitória nas eleições de 1986 para os governos estaduais.

O Plano Cruzado 2, que arquivou o congelamento, foi um desastre que empurrou a popularidade de Sarney para baixo e a inflação para cima. Sarney, mais tarde, deixaria o governo com uma inflação mensal (eu disse: mensal) de 80%. Este ano, a inflação anual (eu disse: anual) ficará em torno dos 8%. A esquerda delirou quando Sarney decretou a moratória da dívida externa. Deu errado. Não tinha como dar certo. Tancredo deve ter-se revirado em seu túmulo.

Uma coisa que Tancredo faria, Sarney fez: a legalização dos partidos comunistas. Acuado por Ulysses, Sarney concordou com a instalação da Assembleia Nacional Constituinte para remover “o entulho autoritário”, o conjunto de leis promulgadas pela ditadura. Não haveria hipótese de Tancredo bancar uma Constituinte “livre e soberana”. No máximo, encaminharia ao Congresso uma proposta conservadora de reforma da Constituição.

Nada de turbulências, repetia Tancredo. Paz e democracia. Mário Henrique Simonsen, ministro da Fazenda de Ernesto Geisel, o penúltimo presidente da ditadura de 64, costumava alertar: “Cuidado! Não se metam com emendas à Constituição porque elas não concedem o direito de veto ao presidente”. A Constituição parida pela Constituinte reduziu o mandato original de seis anos de Sarney para cinco. Poderia ter sido pior.

O PMDB ameaçou aprovar o mandato de quatro anos. Sarney avisou aos partidos por meio do seu ministro da Justiça, Paulo Brossard, que se assim fosse renunciaria ao mandato. Não bastou. Ele então usou os ministros militares para assustar os constituintes. O risco de um golpe bastou. Sarney governou por cinco anos. Nada ganhou a mais com isso. Desceu a rampa do Palácio do Planalto acenando com um lenço branco para as poucas pessoas reunidas ali por perto.

Aecio Neves: senador em artigo lembra Ulysses Guimarães

Aecio Neves: senador fala do legado de Ulysses: fortalecimento das instituições, adensamento da democracia e compromisso com a Federação.

Aecio Neves: artigo

 Aecio Neves: em artigo lembra as lições de Ulysses

Aecio Neves: artigoTancredo Neves e Ulysses Guimarães na votação da Emenda Dante de Oliveira Luiz Antonio / Agência O Globo

Fonte: Folha de S.Paulo

Ulysses

Aecio NevesOs brasileiros lembram neste mês, com reverência, os 20 anos do desaparecimento de Ulysses Guimarães. Ele foi e será sempre símbolo da luta pela democracia e pela justiça social, que encontra sua melhor tradução na Constituição.

Guardamos para sempre sua imagem histórica erguendo o primeiro exemplar e anunciando a “Constituição Cidadã“, trazendo luz ao país após um longo período de sombras.

Ulysses conviveu com uma singular geração de homens públicos. De Tancredo, como dizia Tales Ramalho, era parceiro em uma dança da qual só eles conheciam os passos. Os dois lideraram alas distintas da oposição e agiam de forma complementar, ciosos da necessidade de manter a coesão em torno do fundamental desafio daquele tempo: vencer o regime de exceção. São dois grandes exemplos da dimensão ética e transformadora que a ação política pode ter.

Eram líderes leais ao Brasil, honravam a palavra dada e colocavam sempre o interesse do país cima de quaisquer outros.

Permitiu o destino que, anos depois, eu me sentasse na cadeira de Ulysses, na Presidência da Câmara dos Deputados, e não foram poucas as vezes em que, para tomar decisões complexas, me inspirei no velho timoneiro. Foi nesse período que, com o apoio de diferentes forças políticas, acabamos com a imunidade parlamentar para crimes comuns e criamos na Câmara o conjunto de medidas que ficou conhecido como Pacote Ético.

Dr. Ulysses e sua geração nos deixaram um denso legado. A defesa das razões de Estado, o fortalecimento das instituições, o adensamento da democracia e o compromisso com a Federação criaram uma realidade nova e permitiram que mais adiante pudéssemos continuar avançando com a estabilidade econômica e a inclusão social de milhões de brasileiros.

Lamentavelmente perdemos essa ideia-força – o sentido da construção nacional como tarefa coletiva e dever de todos. Acabamos reféns de um modelo que substituiu o projeto de país por um projeto de poder. As grandes reformas foram abandonadas. As pontes construídas no passado em torno das causas nacionais sucumbiram a um ciclo de governo que apequenou-se e tenta reescrever a história de forma quase messiânica, como se o Brasil do nosso tempo fosse obra de poucos e tivesse sido fundado ontem. Não foi.

Por tudo isso, é importante que as novas gerações conheçam as convicções, o espírito público e a grande generosidade com que o doutor Ulysses sempre trabalhou pelo Brasil. E reconheçamos aqueles que, com coragem, lucidez e coerência, nos ensinaram que é possível sempre semear um novo país. A memória pode ser um eficaz antídoto à descrença e ao desalento que vemos hoje nos brasileiros em relação à política.

AÉCIO NEVES escreve às segundas-feiras neste espaço.

Aecio Neves: artigo – Link da matéria: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/73352-ulysses.shtml

Marcus Pestana: FHC, 80 anos – a herança definitiva

FHC, 80 anos: a herança definitiva

Fonte: Deputado federal (PSDB-MG) Marcus Pestana – Publicado em O Tempo

A política é controversa demais para gerar ídolos, mas…

Descobri o mundo da política no movimento estudantil. Já tinha desenvolvido o sentido da solidariedade no convívio com as jornadas católicas ligadas à Igreja carismática. Daí para a Teologia da Libertação, foi um pulo. Na universidade, no ambiente de refundação da UNE, liguei-me à ortodoxia marxista-leninista. Contradições e dúvidas foram me afastando da esquerda ortodoxa. Elegi-me vereador já orbitando em torno do pensamento progressista independente. Dialoguei com os “eurocomunistas” cariocas. Mas a verdade é que, nos dois primeiros anos do meu mandato, ressentia-me de uma referência ideológica mais sólida.

Foi aí, em 1985, passando por uma banca de jornal, que me surpreendi com uma capa da revista “Status” pendurada. Geralmente a capa da revista era povoada por mulheres bonitas. Essa, não. A chamada era “Um intelectual produzido para o poder” e apontava o “Felipe González brasileiro”. A guinada editorial da revista tinha levado FHC para sua capa. A entrevista do senador, naquela época ainda no PMDB, marcou minha trajetória e me deu o rumo que até hoje sigo.

Naquele ano, FHC perderia a eleição para Jânio Quadros. Lembro bem que, no 15 de novembro, em São Pedro da Aldeia, ao saber o resultado pela TV, recolhi-me ao quarto com uma tristeza enorme.

Recentemente, na antevéspera da 10ª Convenção Nacional do PSDB e próximo ao seu aniversário de 80 anos, visitei FHC em seu instituto, no centro da capital paulista. Foi uma divertida e produtiva conversa. Encontrei um líder cheio de energia, de bem com a vida e no auge da maturidade intelectual. Como sempre, bem-humorado: “80 anos? Isso é intriga do PT. Vou fazer bem menos”.

Não gosto muito de colecionar ídolos na política. Meus ídolos sempre foram Pelé, Tostão e Zico, Milton, Chico, Caetano e Paulinho, Drummond, Guimarães e Pessoa, Picasso, Van Gogh, Portinari, Beatles, Miles Davis e Louis Armstrong. A política é controversa e complicada demais para gerar ídolos. Mas, da política no Brasil, se há alguém que é referência para mim é FHC. Ao lado de JK, Tancredo, Ulysses e Covas.

Mas a identificação e a admiração maior sempre foram na direção de FHC. Desde a leitura de “Desenvolvimento e Dependência na América Latina” até o acompanhamento de sua militância em favor da democracia nos anos 80.

O destino foi generoso. Entregou a condução do país a um dos poucos estadistas que ocuparam a Presidência. A democracia se consolidou, a inflação foi domada; o Estado, reformado; a economia, modernizada; a miséria e a pobreza, atacadas; o Brasil, preparado para o mundo globalizado; a faixa presidencial (em momento raro de nossa história republicana), passada para um operário da oposição, democraticamente eleito.

O Brasil deve muito a FHC. Quem contar a história brasileira e não der papel de destaque a FHC ou estará desinformado ou estará mentindo. Viva a seus 80 anos! Ou será mesmo (a idade) um boato espalhado pelo PT?